Resumos
Os resumos serão apresentados a seguir pela ordem alfabética do primeiro nome de seus autores.​
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Samba, Teatro e Cordel: expandindo a contação de Hans Christian Andersen
Adeval Ferreira de Andrade Neto
Apesar de 150 anos já terem-se passado desde a morte do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, seus contos maravilhosos percorrem o imaginário popular até os dias de hoje. Sob essa perspectiva, analisou-se, neste trabalho, de que forma os contos escritos no século XIX continuam atuais e se expandindo por meio de outras formas de artes, entre elas, o teatro, a música e a literatura de cordel. Para isso, realizou-se um levantamento bibliográfico a respeito da literatura de fantasia e de cordel; analisou-se, comparativamente, o conto “O rouxinol” (Andersen, [séc. XIX] 2016) e o poema “O rouxinol em cordel” (Bonfim, 2015); analisou-se o samba-enredo “Uma delirante confusão fabulística” (Magalhães, 2005), bem como a peça teatral “Sonho encantado de cordel: o musical” (Falcão, 2024). Parte da bibliografia utilizada neste trabalho foi Elliott (2020), Hutcheon (2011), Clüver (2006), Armitt (2020), Tolkien ([1947] 2001), Haurélio (2013; 2017), Weitzel (2013), Belo (2021). Como procedimentos metodológicos, foi realizada uma revisão bibliográfica a respeito da literatura de fantasia e de cordel, bem com uma análise comparativa entre as obras que compõem o corpus da pesquisa, buscando-se identificar de que modo elas apresentam aspectos da obra de Andersen. Ao fim da investigação, uma das conclusões a que se chega é que, por meio das transposições intersemióticas para outras linguagens, a obra de Andersen ganha nova roupagem, a qual não só engradece a própria obra do escritor dinamarquês, como também as demais formas de arte aqui apresentadas, demonstrando sua versatilidade e relevância.
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O rei está nu e o gato, de botas: a exposição do risível em Andersen e Perrault
Adriana F. A. Araldo
O conto “A roupa nova do imperador”, de Hans Christian Andersen, apresenta um dos episódios mais significativos da literatura em que o riso coletivo se volta contra a autoridade. A partir da teoria da carnavalização de Mikhail Bakhtin, a exposição do corpo do rei, despido de seus trajes ilusórios, constitui um exemplo de rebaixamento grotesco, no qual o “alto” (o poder, a majestade) é reduzido ao “baixo” (o corpo nu, frágil, ridículo). Em diálogo com a narrativa “O Gato de Botas”, de Charles Perrault, abordando as imagens de “destronamento do rei”, este trabalho busca examinar como a trapaça e o riso funcionam como instrumentos capazes de inverter hierarquias e desmascarar o poder, revelando o caráter risível da realidade.
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O livro de Eliza: personagens que escapam das páginas
Adriana Medeiros Peliano
Em “Os cisnes selvagens”, de Andersen, Eliza guarda um livro de figuras mágico: nele, as imagens respiram, os pássaros cantam, as personagens caminham e falam com as crianças. Mas, quando a página é virada, tudo retorna ao lugar, como se nada tivesse acontecido. Walter Benjamin viu nesse episódio um enigma essencial: seriam os personagens que saltam das páginas ou seríamos nós, leitores, que mergulhamos para dentro do livro? Esse duplo movimento de saída e entrada transforma o livro em portal, criando espaços virtuais de interação. A pesquisa parte dessa cena dos personagens que escapam das páginas como chave para pensar o livro como espaço de trânsito. Monteiro Lobato também encenou essa operação em o Sítio do Picapau Amarelo, em que personagens de Dona Carochinha fogem dos livros para reinventar suas histórias junto às crianças. Nos pop-up books, as figuras erguem-se em arquiteturas de papel que revelam e recolhem no mesmo gesto. O mesmo acontece no mapa móvel da Terra do Nunca, que se desloca a cada tentativa de fixação e convida o leitor a participar de um território instável, feito de presença e ausência, visível e invisível. Essa vitalidade encontra ecos em criações contemporâneas como A Menina dos Livros, de Oliver Jeffers e Sam Winston, no qual palavras tornam-se montanhas e mares, transformando o ato da leitura em experiência sensorial e imersiva. Assim, o corpus articula o livro de Eliza, as lembranças de Benjamin, a fuga dos livros em Lobato, os pop-ups, o mapa da Terra do Nunca e obras contemporâneas como A Menina dos Livros como materialidades vivas. A fundamentação teórica dialoga com a filosofia da infância em Benjamin e com as materialidades expandidas do livro em múltiplas mídias. O objetivo é compreender como os personagens e lugares que saem das páginas ativam experiências de imaginação, estranhamento e reinvenção do real, abrindo caminhos para novas tecnologias com linguagens híbridas.
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“A Chapeuzinho Vermelho”: o autismo como fio condutor de um reconto
Ana Carolina da Costa e Fonseca
Segundo Ítalo Calvino, clássicos são livros que permitem novas descobertas a cada leitura. Provocada pelo autor italiano, perguntei-me: o que ainda há para descobrir em um conto milenar? Por que Chapeuzinho Vermelho pegou o caminho da floresta? Apesar dos avisos da mãe, ela seguiu o caminho de sempre. Se Chapeuzinho fosse autista como eu, estaria em busca de previsibilidade e conforto: o mesmo caminho, a mesma roupa. Com um recorte de gênero que considera outras características atribuídas a mulheres autistas, tomo a neurodiversidade como fio condutor para recontar a narrativa. Audição e olfato são aguçados. Chapeuzinho reconhece cada pelo do focinho do lobo, mas, como muitas outras meninas autistas, foi ensinada a ser gentil, dócil, e a disfarçar suas características. “A Chapeuzinho Vermelho”, assim, com artigo definido, foi recontado por mim, ilustrado por Maciste Costa e publicado pela Editora Madrepérola. O objetivo da presente comunicação é discutir o processo de escrita do reconto pelas lentes da neurodiversidade, especificamente, do autismo. A reescrita foi precedida de vasta pesquisa sobre versões e releituras do conto de fadas, dentre as quais, destaco as de: Marjolaine Leray, Rosinha Campos, Cristina Agostinho, Bethan Woolvin, Mar Ferrero, Alexandre Rampazzo, Jean-Claude Alphen, Roberta Malta, Chico Buarque, Attilio Cassinelli, Warja Lavater. Para o desenvolvimento da presente comunicação, são utilizados, dentre outros, os seguintes referenciais teóricos: Nelly Novaes Coelho (“A literatura infantil: história, teoria, análise”), Bruno Bettelheim (“A psicanálise dos contos de fadas”), bell hooks (“Ensinando a transgredir”) e Chimamanda Ngozi Adichie (“O perigo da história única”).
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Hans Christian Andersen — inspirador do movimento “Bonliteraturo”
Ana Lucia Gobbi Cavalcanti
Geraldo Pereira Cavalcanti Junior
Através da observação do cotidiano urbano contemporâneo, percebemos que o eucentrismo, além de significar o mau uso social do nosso bem mais precioso, que é o tempo, produz o afastamento dos valores humanos. Diante dessas preocupantes constatações, criamos o movimento literário que denominamos “Bonliteraturo”, cujo manifesto encontra-se em: https://bonliteraturo.com.br, e que se baseia em propor conteúdos literários visando transmitir modelos de incentivo à prática de valores humanos, isento de violência, agressividade e outros sentimentos que possam ser elementos de desagregação. Encontramos uma identidade com a obra de Hans Christian Andersen quando o foco do movimento Bonliteraturo busca evidenciar a importância que é o valor da igualdade humana, e procura estender, em conteúdos destinados às demais faixas etárias, com diferentes complexidades narrativas, a transmissão de valores morais e comportamentais e, pela superação de conflitos através de desafios, atingir o reconhecimento e a realização. Cientes da atual situação de não cumprimento dos ditames para a inscrição na condição de Comunicadores, mas ainda no verdadeiro interesse de cumprir com a tarefa de divulgar o Movimento Bonliteraturo, que encontra, com uma de suas bases, a obra de Hans Christian Andersen, é que ora se toma a liberdade para solicitar um pequeno espaço para apresentar, ainda que em linhas gerais, esse projeto-convite para que autores possam refletir sobre a concepção de seus trabalhos em proximidade com a visão de H. C. Andersen.
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Intertextualidade, representações de gênero e vulnerabilidade infantil em “Polegarzinha” e “O Pequeno Polegar”
Ana Paula Oliveira Macri Rodrigues
“O Pequeno Polegar”, de Charles Perrault (1628–1703), e “Polegarzinha”, de Hans Christian Andersen (1805–1875), são narrativas emblemáticas da tradição dos contos de fadas europeus e constituem o corpus central desta pesquisa. Ambas apresentam protagonistas minúsculos que enfrentam desafios existenciais e sociais, abordando temas como a vulnerabilidade infantil e os processos de construção identitária. A figura do herói pequeno remonta a personagens como “Tom Thumb”, do folclore inglês, cuja primeira versão impressa conhecida data de 1621. A pesquisa propõe analisar a intertextualidade entre os contos de Perrault e Andersen, evidenciando pontos de convergência e contraste em termos de enredo, simbolismo e caracterização dos protagonistas. Autores como Costa Val (1999), Paulino, Walty e Curry (1995) e Koch e Elias (2011) fundamentam a abordagem intertextual, enquanto Bettelheim (2002) e Coelho (2000) subsidiam a compreensão sobre o papel psicológico dos contos de fadas no desenvolvimento infantil. A análise destaca, sobretudo, como essas narrativas refletem construções sociais de gênero: enquanto “O Pequeno Polegar” valoriza a astúcia e a ação do protagonista masculino, “Polegarzinha” enfatiza a beleza, a delicadeza e a espera por salvação externa, reforçando o ideal feminino vigente à época. Ao problematizar essas representações, o estudo oferece uma leitura crítica dos contos de fadas como instrumentos culturais que influenciam a formação das identidades infantis, evidenciando como a fragilidade física dos personagens opera simbolicamente como metáfora da vulnerabilidade da infância diante das normas sociais e culturais atribuídas a meninos e meninas.
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Por onde andas os contos de fadas na Educação Infantil: uma proposta prática a partir da obra “O patinho feio”
Andréia de Oliveira Alencar Iguma
Andreina de Melo Louveira Arteman
Esta comunicação tem como objetivo apresentar os resultados de uma proposta prática desenvolvida em uma sala de referência da Educação Infantil, tendo como ponto de partida a leitura da obra O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen. A iniciativa surgiu a partir de vivências e observações realizadas no cotidiano escolar, que evidenciaram um certo distanciamento das crianças em relação aos contos de fadas clássicos, muitas vezes considerados pouco próximos de suas realidades e experiências de vida. Com base nessa constatação, buscamos construir uma mediação coletiva, em que as crianças fossem protagonistas do processo. Durante a atividade, elas foram convidadas a estabelecer relações entre os elementos narrativos e suas próprias percepções do mundo, refletindo especialmente sobre o jogo dual entre o belo e o feio, bem como sobre o efeito surpresa presente na narrativa, quando o personagem central, inicialmente rejeitado, revela-se na verdade um cisne. Essa abordagem possibilitou a valorização da leitura literária como prática cultural e como forma de desenvolvimento da sensibilidade estética, além de promover discussões sobre identidade, diversidade e aceitação. O trabalho também destacou a importância do professor como mediador, capaz de ressignificar histórias tradicionais e aproximá-las das vivências infantis. Como referencial teórico, apoiamo-nos nos estudos de Regina Michelli, que discute a literatura infantil como espaço de formação crítica; Karen Volobuef, que analisa os contos de fadas a partir de sua historicidade e permanência cultural; e Catia Canton, que enfatiza a importância da experiência estética no contato da criança com a obra de arte literária.
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Das páginas às telas: a tradução intersemiótica de “A Pequena Vendedora de Fósforos”, de Hans Christian Andersen
Angelo Roberto Gonçalves Ribeiro
Camila Cattai de Moraes
Este trabalho realiza uma análise comparativa entre o conto “A Pequena Vendedora de Fósforos” (1845), de Hans Christian Andersen, e sua adaptação para o cinema em um curta-metragem homônimo de 2006, dirigido por Roger Allers, com produção da Disney. Objetiva-se investigar o processo de tradução intersemiótica na transposição do código literário para o cinematográfico, com foco em como os elementos narrativos, simbólicos e dramáticos são ressignificados. O eixo da análise centra-se na construção da personagem feminina e na representação do cronotopo — conceito bakhtiniano que articula tempo e espaço na narrativa. A fundamentação teórica recorre a Julio Plaza e Roman Jakobson, para discutir a tradução intersemiótica; Linda Hutcheon, no campo dos estudos da adaptação; Ligia Chiappini Moraes Leite e Arnaldo Franco Júnior nos estudos da narrativa, por fim, Gustavo Mercado para referenciar a linguagem audiovisual. A análise demonstra como a adaptação preserva a delicadeza lírica e a dramaticidade do conto, ao mesmo tempo que introduz novas camadas de significado por meio de recursos imagéticos, sonoros e do ritmo cinematográfico. Dessa forma, o estudo discute o potencial da tradução intersemiótica para compreender a permanência e a renovação de obras literárias no cenário cultural contemporâneo.
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Reflexões sobre a Modernidade a partir de uma leitura de “A Pequena Vendedora de Fósforos”
Bianca Leão Bertin
O presente trabalho trata de uma possível leitura do conto “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Christian Andersen, publicado em 1845. O conto “A Pequena Vendedora de Fósforos” mostra-se assertivo quando retrata a injustiça social e o esfriamento das relações humanas presentes no contexto social e histórico em que foi composto, o século XIX. O presente trabalho, assim, propõe apresentar um diálogo entre o conto de Andersen e as reflexões sobre a modernidade desenvolvidas por Charles Baudelaire em “O Pintor da Modernidade” (1863) e por Walter Benjamin em “Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo”. Esses ensaios refletem a respeito da modernidade e sua expressão na arte, levando em conta questões históricas e sociais, por exemplo, o inchaço dos centros urbanos europeus e a nova relação estabelecida entre as pessoas, relação essa pautada na indiferença diante desse novo contexto social; tema presente no conto de Andersen. Dessa forma, objetiva-se expor que Andersen mostrou-se mais do que um escritor voltado ao tema do encantamento presente no universo infantil. Ele também foi crítico ao contexto social em que viveu. De forma sensível, o autor trabalhou o desencantamento gerado pelas condições degradantes impostas às crianças pobres de sua época, questão que, mesmo mais de 150 anos depois, continua atual.
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O “Era uma vez” de Hans Christian Andersen na crônica de Clarice Lispector
Bruna Bittencourt
Na crônica “O Artista Perfeito”, publicada no Jornal do Brasil em 6 de agosto de 1969, Clarice Lispector questiona as ideias de Henri Bergson no Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, segundo as quais o gênio seria aquele capaz de libertar todos os sentidos de sua função utilitária, e não apenas um, como, por exemplo, a visão do pintor ou a audição do músico. A escritora se pergunta, então, se, em um cenário hipotético em que a criança preservasse intacto seu aparato sensorial, isso faria com que o adulto se tornasse um artista. Na análise subjetiva de Clarice, que a leva a adotar uma postura crítica em relação aos pressupostos filosóficos de Bergson, surge discretamente a alusão ao conto “A Nova Roupa do Imperador”, de Hans Christian Andersen, que se insere como um ponto adicional de reflexão na discussão teórica. Essa referência, embora sutil, apressa suas conclusões sobre a inocência — característica própria das crianças —, a qual, em vez de ser protegida, deve ser redescoberta pelo artista. O objetivo dessa proposta de comunicação oral é corroborar que, no pensamento subjacente à crônica, há um juízo mais amplo sobre a vocação artística, no qual o olhar espontâneo do menino, no clássico de Andersen, se apresenta como outro tipo de dom.
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Revisionismo crítico e epistemológico do feminino nos contos de fadas
Bruna Vieira Dorneles
Esta pesquisa investiga como personagens e enredos tradicionais de contos de fadas podem ser lidos na contemporaneidade, questionando representações de subjetividade feminina. Nesse sentido, propõe-se uma categorização crítica das princesas baseada em quatro critérios: motivo do conflito; participação de personagens auxiliares; modo de resolução do conflito; tipo predominante de amor no enredo. Com essa metodologia, são identificadas cinco categorias de princesas (clássicas, migrantes, absolvidas, libertas, confiantes), considerando-se os filmes de animação dos estúdios Disney, produzidos entre 1937 a 2024. Além disso, essa análise é feita em comparação com a literatura infantil clássica, como as obras de Jacob e Wilhelm Grimm, Hans Christian Andersen e Madame de Villeneuve. Ao considerar outras possibilidades de leitura para os contos de fadas, discute-se, ainda, como as mulheres foram representadas na figura da vilã, utilizando-se narrativas de Andersen para analisar representações visuais (imagens do cinema e performance). Por fim, esta pesquisa propõe a construção de uma epistemologia de gênero voltada à análise de contos de fadas, por meio das teorias feministas marxista e interseccional, com o intuito de oferecer um referencial teórico-metodológico que amplie as possibilidades de leitura das personagens femininas, para além de abordagens que tendem a reduzi-las a categorias opositivas como “princesa submissa” ou “princesa feminista”. Este estudo parte da observação de que, embora os contos de fadas sejam frequentemente analisados sob a perspectiva dos estudos de gênero, ainda carecem de um método crítico sistematizado que considere sua complexidade histórica e simbólica, sobretudo quando são de autoria feminina.
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Histórias de brinquedos: as miniaturas simbólicas de Hans Christian Andersen e a representação cultural
Caio Matheus Teixeira Brito
Marco Antonio da Costa Camelo
Este trabalho investiga as relações entre as personagens em miniatura na literatura de Hans Christian Andersen e a representação simbólica do brinquedo, concebido como artefato histórico-cultural e mediador de experiências estéticas e sociais. A análise recai sobre a narrativa “A Pastora e o Limpa-chaminés”, em diálogo com os ensaios de Walter Benjamin (2009) sobre os brinquedos, evidenciando como esses, ao assumirem função narrativa, expressam tanto afetos individuais quanto experiências representativas da cultura. A pesquisa, de caráter qualitativo e bibliográfico, parte da compreensão de que a criança não está apartada de seu meio social, e que o brinquedo, por sua vez, reflete tais noções de pertencimentos culturais. Para aprofundar essa reflexão, mobilizam-se as contribuições de Rodari (2021) e Piorski (2016), que discutem o vínculo entre brinquedos, culturas e infâncias na literatura, articulando-se às reflexões benjaminianas sobre o brinquedo e a experiência sensível. Nesse contexto, entende-se que a obra de Andersen antecipa uma visão moderna da infância, revelando as personagens-brinquedos como recurso de mediação simbólica entre imaginação, cultura e identidade.
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A infância nos contos "A Pequena Vendedora de Fósforos", de Hans Christian Andersen, e "Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos", de Conceição Evaristo
Camila da Conceição Magalhães
Patrícia Aparecida Beraldo Romano
O presente trabalho consiste em um estudo bibliográfico acerca da representação da infância em um conto de fadas publicado em 1845 e um conto contemporâneo publicado em 2007. Os objetivos giram em torno de compreender como a infância é retratada nos contos, investigando a situação socio-histórica em que a obra foi escrita, analisando as características do enredo e dos personagens, comparando as similaridades entre as produções literárias e compreendendo a importância de ambos os textos para a sociedade. Para tanto, adota-se como corpus de análise a obra “A Pequena Vendedora de Fósforos”, de Hans Christian Andersen, e o conto “Zaíta Esqueceu de Guardar os Brinquedos”, de Conceição Evaristo, considerando o propósito e o estilo literário de cada escritor, cujas temáticas abordadas despertam em seu leitor uma profunda reflexão sobre a situação dos personagens. A pesquisa fundamenta-se teoricamente em autores que dialogam com os contos e a temática, sendo alguns deles: Philippe Ariès (1986), no que se refere ao recorte histórico dos diferentes conceitos de criança; Fanny Abramovich (1997), sobre a literatura para crianças; Yasmin Santos (2024), quanto à escrevivência; Neiva-Silva e Koller (2002), acerca de crianças em situação de rua, etc. Dessa forma, através das reflexões sobre os problemas sociais presentes nas narrativas investigadas e a sensibilidade dos escritores, é possível perceber a realidade de inúmeras crianças que se estende desde o século XIX até o XXI.
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O mediador não neutro na leitura de “O Patinho Feio”: co-subjetivação e simbolização na Literatura de Berço
Cássia Vianna Bittens
Esta comunicação investiga a leitura mediada a partir da perspectiva da Literatura de Berço, com foco na cena de leitura compartilhada entre adulto, bebê e livro. O tema central é a figura do mediador não neutro, sujeito que, ao ler, encarna o texto com sua voz, corpo e história, instaurando um espaço de implicação psíquica e estética. O objetivo é compreender como essa mediação atravessada pode favorecer processos de subjetivação e simbolização desde a primeiríssima infância, de modo que o bebê se constitua como sujeito poético e co-leitor. O corpus de análise concentra-se no conto O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen, em duas versões dirigidas à primeira infância. A análise comparativa entre uma edição literária e outra com menor densidade poética e imagética busca evidenciar que os processos de alteridade não se restringem à trama, mas se atualizam na cena de leitura. O bebê, em co-subjetivação (Golse; Guerra, 2009), encontra-se implicado na palavra literária, enquanto o adulto-mediador ancora a experiência como campo de simbolização compartilhada. A fundamentação teórica articula crítica literária e psicanálise, destacando a noção de leitor situado (Barthes, 1988) e o conceito de co-subjetivação (Golse; Guerra, 2009). Nessa perspectiva, a cena de leitura é compreendida como um nó borromeano — mediador, bebê e texto entrelaçados em estrutura indissociável. Conclui-se que a leitura literária de O Patinho Feio, quando sustentada pelo mediador não neutro, ultrapassa a função narrativa e se revela como espaço de co-criação estética e psíquica.
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O jogo e as tensões simbólicas no conto "Ole Lukoeje" de Hans Christian Andersen
Charles Ribeiro Pinheiro
A obra de Hans Christian Andersen (1805-1875), especialmente o conto Ole Lukoeje (tradução de Guttom Hansem), permite compreender a leitura como um jogo simbólico e de fruição estética, aspectos presentes nos mitos e nos contos de fadas, que contribuem para a formação cultural da humanidade. Este trabalho tem como objetivo analisar as tensões entre o sonho (dimensão onírica e afetiva) e a vigília (lógica materialista do cotidiano), simbolizadas no referido conto, que evidenciam o papel da imaginação como força criadora e libertária diante da racionalidade materialista do século XIX. Busca-se discutir de que modo Andersen resgata arquétipos universais – o contador de histórias, a criança e o deus do sonho – para construir um espaço literário em que a experiência estética se confunde com a experiência onírica. O corpus central da pesquisa é o conto Ole Lukoeje, presente na coletânea Contos de Andersen, publicado pela editora Paz e Terra, em 1981, com tradução de Guttom Hansem. A fundamentação teórica baseia-se no estudo da linguagem simbólica pautado pela psicologia analítica e psicanálise, utilizando referências de Carl Gustav Jung (Símbolos da Transformação, 1986), Erich Fromm (A Linguagem Esquecida, 1974) e Bruno Bettelheim (Psicanálise dos contos de fadas, 2005) que tratam da relação íntima entre o mundo interior e exterior. Espera-se com a pesquisa demonstrar que Ole Lukoeje constitui um retorno à “infância da humanidade”, no qual a leitura se apresenta como jogo simbólico capaz de articular mito, sonho e literatura, favorecendo a mediação cultural entre passado e presente, criança e adulto, realidade e imaginação.
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Dois reinos para duas princesas: “A Pequena Sereia”
Cleide Antonia Rapucci
O estudo propõe a análise do conto "A Pequena Sereia" de Vita Murrow sob a ótica do revisionismo feminista e da interseccionalidade. Trata-se de um texto que trabalha de forma interseccional com questões ambientais, de aceitação corporal, de relacionamento e de autodescoberta. Serão abordados os vínculos entre mulheres, a agência feminina, a feminização do mundo como estratégias da diversidade que vêm quebrar os pressupostos da heteronormatividade, das regras capacitistas e das imposições do patriarcado como cerceamento da individuação feminina.
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Simbologia do fogo e formação do leitor infantojuvenil: um diálogo entre Andersen e Hoffmann
Cristiane do Couto de Moraes
Este trabalho propõe uma reflexão sobre a simbologia do fogo e do jogo nos contos A pequena vendedora de fósforos, de Hans Christian Andersen, e A lamentável história de Paulinha e seus fósforos do Dr. Heinrich Hoffmann, da coletânea João Felpudo. O fósforo ultrapassa sua função prática e se converte em metáfora de desejo, imaginação e risco, articulando dimensões de vida, morte e ludicidade. Enquanto Andersen evoca a fragilidade social e a busca por calor e afeto por meio das visões da menina diante da miséria, o conto de João Felpudo reposiciona o gesto de acender o fósforo como ato lúdico, carregado de curiosidade e perigo. A fundamentação teórica baseia-se em Teresa Colomer (2003), destacando o papel da literatura na formação leitora ao oferecer múltiplos sentidos para a infância. Nessa perspectiva, a dimensão do jogo, discutida por Sengik e Ramos (2013), revela-se como espaço de aprendizagem e construção de significados, indo além do mero entretenimento. Abramovich (2004) ressalta a importância de proporcionar experiências literárias que alimentem a imaginação e ampliem o olhar crítico e Bartolomeu Campos de Queirós (2015) que sublinha a literatura como espaço de sensibilização e humanização. Assim, ao colocar em diálogo essas duas personagens infantis, evidencia-se a potência estética e formativa do conto, favorecendo uma educação literária que valoriza a ludicidade e o simbólico no percurso do leitor infantojuvenil.
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A última chama: finais eucatastróficos nos contos de Andersen
Cristina Casagrande de Figueiredo Semmelmann
Os contos de Hans Christian Andersen (1805–1875) são carregados de sensibilidade, sendo a identidade de seus personagens — humanos, animais ou objetos — revelada de maneira intensa. Tais protagonistas, enquanto pessoas, se portam de modo relacional, transmitindo a grandeza de suas emoções — a partir das experiências vividas — a tudo e todos que os cercam — inclusive, o próprio leitor. Não raro, suas narrativas são carregadas de melancolia, transparecida, de modo especial, em seus icônicos desfechos. Seriam esses finais tipicamente dramáticos? Poderiam ser considerados contos trágicos? Segundo Aristóteles (384–322 a.C.), na Poética (335–323 a.C.), a tragédia implica o páthos, gerando fortes emoções como medo e compaixão, culminando no fim catastrófico dos protagonistas. Tais desfechos geram, no público, a chamada catarse, a purificação das paixões sentidas. Já para o autor de fantasia J.R.R. Tolkien (1892–1973), em seu ensaio “Sobre Estórias de Fadas” (1939), os contos de fadas são passíveis de “eucatástrofe”, uma virada para o bem. Segundo ele, essa “é a verdadeira forma do conto de fadas e sua mais alta função”, enquanto “a Tragédia é a verdadeira forma do Drama”. Tendo essas questões em mente e se valendo dos princípios de transtextualidade proposto por Gérard Genette (1930–2018), verificaremos como o conceito de eucatástrofe pode ser reconhecido nas narrativas de Andersen. Para tal, tomaremos como base três contos do autor, “O Patinho Feio” (1843), “A Pequena Sereia” (1837) e “A Pequena Vendedora de Fósforos” (1848), estabelecendo, nesse recorte, uma gradação de sentimentos gerados por seus desfechos — desde o mais feliz até o mais melancólico. Busca-se, assim, verificar, em que medida, tais finais comoventes podem revelar, nas palavras de Tolkien, “um vislumbre fugidio da Alegria, [...] além das muralhas do mundo, pungente como a tristeza”.
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A representação feminina em “O Que um Marido Faz Está Sempre Certo”, de Hans Christian Andersen, e A moça tecelã, de Marina Colasanti
Dayse Oliveira Barbosa
Este trabalho realiza estudo comparativo entre os contos “O Que um Marido Faz Está Sempre Certo”, de Hans Christian Andersen, e A moça tecelã, de Marina Colasanti, com o intuito de analisar a constituição da representação feminina e do poder conjugal em ambas as obras. Para realizar esse trabalho são considerados os aportes teóricos de Nelly Novaes Coelho (1989), Irandé Antunes (2010), Ana Lúcia Merege (2010), Bruno Bettelheim (2021), Maria Tatar (2022) e Maureen Murdock (2022). A metodologia de análise dos contos é centrada na condição feminina e no desfecho das relações matrimoniais apresentadas em Andersen e Colasanti, considerando o contexto em que os contos estão inseridos. Percebe-se que em “O Que um Marido Faz Está Sempre Certo” as relações de poder privilegiam o status social masculino, uma vez que a mulher, apesar de insatisfeita, é obrigada a aceitar a negociação do marido; já em A moça tecelã a protagonista tece a própria realidade e, dessa forma, ao perceber a exploração e o autoritarismo do marido, ela o destece, retomando a autonomia e o poder criativo. Tomados em análise comparativa, “O Que um Marido Faz Está Sempre Certo”, de Hans Christian Andersen, e A moça tecelã, de Marina Colasanti, apontam para a desconstrução da submissão feminina na relação conjugal no transcorrer do tempo.
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Ecos de Andersen em Caleidoscópio de vidas: transtextualidade e materialidade poética
Diana Navas
No sesquicentenário da morte de Hans Christian Andersen, torna-se relevante observar como sua obra reverbera em produções contemporâneas que, embora não constituam recontos diretos, mobilizam motivos, atmosferas e sensibilidades que lhe são caros. O presente trabalho propõe analisar Caleidoscópio de vidas (2020), de João Anzanello Carrascoza, como narrativa que dialoga transtextualmente com Andersen, não apenas pelo tom lírico e melancólico que aproxima os fragmentos narrativos de suas histórias, mas também pela atenção à fragilidade da condição humana, à alteridade e ao olhar compassivo para as existências anônimas. O objetivo é evidenciar como esse livro brasileiro atualiza núcleos temáticos andersenianos — como a precariedade da vida, a solidão e a necessidade de ressignificação simbólica — em textos breves que, à semelhança das histórias de Andersen, fundem lirismo, dor e beleza. A fundamentação teórica apoia-se nos estudos de Gérard Genette (2010) sobre transtextualidade, nas reflexões de Linda Hutcheon (1985) acerca da intertextualidade crítica e nos debates sobre materialidade do livro-objeto (Ramos, 2011). A análise destaca ainda a importância da materialidade da obra, cuja concepção gráfica dialoga com o próprio título: a disposição fragmentada dos textos, as imagens que os acompanham e o projeto editorial que sugere múltiplos ângulos de leitura reforçam o caráter caleidoscópico da experiência estética. Nesse sentido, Caleidoscópio de vidas pode ser compreendido como herdeiro da tradição anderseniana, ao mesmo tempo em que a reinventa no contexto da literatura juvenil contemporânea brasileira.
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A presença de temas fraturantes nos contos da tradição: uma análise de Andersen
Elen Pereira de Lima e Regina Silva Michelli Perim
O presente trabalho, que integra uma pesquisa inicial de mestrado intitulado “Desenrolando fios: o abuso sexual como tema fraturante em Leila, de Tino Freitas, e O abraço, de Lygia Bojunga”, objetiva observar como se configura a construção dos hoje chamados temas fraturantes no conto “A pequena vendedora de fósforos”, de Hans Christian Andersen, que conta a história de uma menina muito pobre que, na noite de Ano Novo, tenta vender fósforos para sobreviver, mas, ao final, é encontrada morta na rua. Partindo dos pressupostos teóricos de Ana Margarida Ramos (2011), Fanuel Hanán Díaz (2020) e Beatriz Feres e Regina Michelli (2022), a pesquisa procederá a uma conceituação de temas fraturantes, observando também a questão da censura, a partir, ainda, de Díaz. Além disso, será realizada uma investigação a respeito da presença de tais temáticas polêmicas, ou tabus, já nos contos da tradição, considerando os estudos de Nelly Novaes Coelho (1991; 2000) e Maria Tatar (2004). Dessa forma, a metodologia de pesquisa baseia-se na análise qualitativa dos textos, por meio da qual será analisada a presença da violência no conto como um possível tema fraturante na literatura potencialmente destinada a crianças e jovens, observando também as questões históricas envolvidas, segundo os estudos de Philippe Ariès (1986). Assim, espera-se contribuir para os estudos literários em torno de Hans Christian Andersen, das obras da tradição e dos temas fraturantes.
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Biblioteca Hans Christian Andersen: trajetória institucional e práticas de mediação cultural
Elisangela Alves Silva
Inaugurada em 1952 sob a denominação de Biblioteca Infantil do Tatuapé, a primeira da zona leste de São Paulo, a Biblioteca Pública Municipal Hans Christian Andersen recebeu a designação atual em 1955, em homenagem ao renomado escritor dinamarquês. Em 2007, reafirmando sua vocação, a instituição passou a ser temática em contos de fadas, reunindo um acervo especializado e consolidando projetos voltados à arte de narrar histórias. Mais do que um espaço de armazenamento de livros, a biblioteca estabeleceu-se como um espaço de formação, memória e resistência cultural. O objetivo desta comunicação é apresentar a trajetória da Biblioteca Hans Christian Andersen como um espaço de mediação cultural e educativa, destacando suas coleções e as conexões que mantém com a comunidade local, bem como com os admiradores da obra de Andersen. Entre os projetos estruturantes, destaca-se o Curso de Formação de Contadores de Histórias, criado em 2008, que já formou mais de 800 narradores atuantes em escolas, bibliotecas, hospitais, ONGs e diversas comunidades. O corpus de análise abrange o acervo temático — que conta com aproximadamente 2.400 títulos especializados em contos de fadas e na arte narrativa, além de mais de 30 mil exemplares de literatura infantil e geral — e as práticas formativas e comunitárias que transformaram a biblioteca em um polo de irradiação cultural. A fundamentação teórica apoia-se em estudos sobre literatura infantil, na biografia de Andersen e no direito à leitura, dialogando com a autora Chimamanda Adichie ao problematizar o risco da “história única”. Nesse contexto, a Biblioteca Pública Hans Christian Andersen se afirma como um espaço de pluralidade de vozes, de encantamento e de formação cidadã.
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Reinventando o imaginário clássico: uma leitura interseccional e queer de “A Princesa e a Costureira”
Érica Fernandes Alves
Gustavo Moreira Rocha
Este trabalho analisa “A Princesa e a Costureira” (2015), de Janaína Leslão, como uma releitura contemporânea dos contos de fadas que dialoga com perspectivas feministas, interseccionais e queer. A narrativa acompanha a princesa Cíntia, prometida a um príncipe, que rompe com expectativas heteronormativas ao viver seu amor com a costureira Isthar. Ao deslocar a princesa do papel tradicional de passividade e dependência masculina, a obra reinscreve gênero, raça, classe e sexualidade em um gênero historicamente marcado pela branquitude e pelo patriarcado. A análise fundamenta-se em Bacchilega (2013), que discute reescritas feministas de contos de fadas; em Akotirene (2019), cuja abordagem da interseccionalidade permite compreender como diferentes marcadores sociais de diferença atravessam a narrativa; em Butler (2003), que problematiza normas de gênero e mecanismos de performatividade; em Miskolci, que evidencia práticas sociais reguladas pela heteronormatividade; em Bourdieu, cuja noção de habitus ajuda a pensar a reprodução e transformação das estruturas simbólicas; e em Ribeiro (2017), que traz a perspectiva do feminismo negro e da crítica pós-colonial. Com esse enquadramento teórico, busca-se demonstrar como Leslão reinventa o imaginário clássico europeu, valorizando o protagonismo de personagens femininas e negras e abrindo espaço para representações dissidentes de gênero e sexualidade. Além de deslocar estereótipos normativos, a obra evidencia seu potencial pedagógico e cultural, funcionando como instrumento de inclusão e de construção de novos repertórios simbólicos. Assim, “A Princesa e a Costureira” afirma-se como narrativa de resistência, visibilidade e transformação social no campo da literatura infantil.
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A bruxa do mar em imagens visuais
Felipe Ribeiro Campos
A feiticeira do mar é uma personagem do conto A Pequena Sereia (Andersen, 1837) que não tem suas características físicas descritas no texto, mas a periculosidade dela é evocada pelas qualificações negativas direcionadas ao lugar em que ela live: no caminho até chegar à habitação do ser não crescem flores nem relva do mar, mas tem redemoinhos, lama, uma floresta mortífera com árvores e arbustos metade animal e metade vegetal que agarram qualquer coisa com seus galhos e um lamaçal infestado de enormes cobras d’água. A feiticeira do mar (que não tem nome próprio) mora em uma casa construída com ossos de pessoas que morreram afogadas em naufrágios. Características dela no texto encontramos, além da companhia das cobras d’água, a presença de um sapo e que ela possui sangue negro e uma gargalhada maligna. A cenografia assustadora é usada como estratégia para antecipar o encontro com a feiticeira e, curiosamente, não encontramos qualificação (positiva ou negativa) daquela que a Pequena Sereia encontra a fim de pedir ajuda para viver ao lado do príncipe salvo por ela. Atentos à falta de informação acerca da feiticeira do mar no conto, voltamos a nossa atenção para representações visuais dadas por alguns ilustradores, amparados pelo conceito de estereótipo da bruxa, no pensamento de que feiura estaria necessariamente conectada à maldade. Como aporte teórico, utilizaremos textos de teóricos da Análise do Discurso e de imagens visuais: entre eles estão Patrick Charaudeau, Ruth Amossy e Sophien van der Linden.
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Andersen em diálogo com Verbeek e Karam
Fernanda Marques Granato
Nesta breve comunicação, são examinados excertos selecionados das obras de Hans Christian Andersen, Gustave Verbeek e Manoel Carlos Karam à luz dos conceitos do nonsense literário e das obras de Lewis Carroll e Edward Lear, tendo em vista as questões de alteridade, identidade e sujeito fragmentário, além das questões de absurdo, paradoxo, perda das referências e atribuição de sentido ao mundo.
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“A Princesa e a Ervilha”: o conto de fadas na televisão
Fernanda Rios de Melo
O tema da seguinte apresentação é processo de adaptação fílmica do conto de fadas “A Princesa e a Ervilha” (em dinamarquês: Prinsessen på Ærten). Considerado um dos primeiros textos de Hans Christian Andersen, datado de 1835, nele um príncipe procura por uma princesa autêntica para que ele pudesse se casar. Em outras palavras, foi criado um teste para saber qual senhorita seria de fato uma princesa à altura do príncipe. Como corpus de análise comparativa, selecionamos um episódio da série Faerie Tale Theatre, série estaduninse produzida nos anos 1980, criada e produzida por Shelley Duvall. Ela foi transmitida no Brasil pela TV Cultura com grande êxito, na década seguinte. O episódio em questão traz como protagonista a atriz Liza Minelli. O principal objeto desta comunicação é observar o processo de adaptação realizada na passagem da literatura para o audiovisual. Para isso, utilizaremos os conceitos de tradução intersemiótica desenvolvido por Julio Plaza (2013), imagem-tempo de Gilles Deleuze (2018) e análise do olhar proposta por Didi-Huberman (2010). O objetivo secundário é analisar a presença feminina contestadora nessa obra. Como breve conclusão, apresentaremos de que maneira Andersen antecipa pautas feministas, como os contos de fadas ainda exercem grande fascínio e como a adaptação alcança seu objetivo de conquistar o público.
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Metamorfoses da sereia entre páginas e telas: reverberações do conto “A Pequena Sereia” em A menina do mar, de Sophia de Mello Breyner Andresen, e Ponyo, de Hayao Miyazaki
Fernanda Sampaio Gomes dos Santos
A comunicação propõe uma leitura comparada de duas obras que são releituras do conto “A Pequena Sereia”, de Hans Christian Andersen: o conto infantil A Menina do Mar (1958), de Sophia de Mello Breyner Andresen, e o filme Ponyo (2008), de Hayao Miyazaki. Desse modo, a comunicação pretende analisar de qual forma a narrativa de Hans Christian Andersen, marcada pela melancolia, pelo sacrifício e pelo desejo de transcendência, serve como hipotexto fundador em uma rede transtextual que faz com que um conto sobre uma sereia que sonha em viver entre os humanos encontre reverberações na literatura e no cinema. Sophia, em A Menina do Mar, reinscreve a imagem da sereia em um registro poético e luminoso, onde a relação com o mar está associada à infância. Em A Menina do Mar, duas crianças constroem uma amizade que é motivada pelo desejo de descobrir e conhecer o mundo do outro. Desse modo, os personagens do conto compartilham o sentimento de alteridade, deslocando a tragicidade presente em “A Pequena Sereia” em direção a um horizonte de comunhão. Miyazaki, por sua vez, retoma Andersen através de um imaginário animista, elaborando uma trama embasada por uma forte consciência ambiental. Contrariando a narrativa original, o filme transforma a metamorfose da sereia em um gesto que é símbolo de um amor fraternal que promove a reconciliação entre o mundo natural, representado pelo oceano, e o mundo dos humanos.
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De princesa a heroína: análise da personagem feminina no conto “A Warrior’s Daughter”, de Zitkala-Ša
Geniane Diamante Ferreira Ferreira
Rosely Camilo Pereira Gomes
Analisamos o conto A Warrior’s Daughter (1921), da autora indígena estadunidense Zitkala-Ša (1876-1938), pertencente ao povo Yankton Dakota, sob a perspectiva da representatividade feminina na literatura. A narrativa traz como protagonista Tusee, uma jovem indígena que desafia os papéis de gênero tradicionais ao assumir uma posição tipicamente atribuída ao masculino: a de guerreira e salvadora. Em vez de se apresentar como uma figura passiva ou dependente, como comumente ocorre nos contos de fada clássicos, é ela quem age com coragem, astúcia e determinação para resgatar seu pretendente. Essa inversão de papéis propõe uma crítica aos estereótipos de gênero, subvertendo a lógica patriarcal dominante nas narrativas ocidentais e valorizando uma figura feminina ativa, forte e protagonista de sua própria história. A presente pesquisa busca compreender de que forma características historicamente associadas ao masculino — como bravura, racionalidade estratégica e protagonismo — são incorporadas à construção da personagem Tusee, rompendo com o estigma da fragilidade, passividade e subalternidade frequentemente atribuídos às mulheres, especialmente as indígenas, na literatura canônica. Além disso, observa-se como Zitkala-Ša, ao escrever a partir de sua perspectiva cultural e de gênero, oferece uma narrativa que reafirma a identidade e a resistência de mulheres indígenas. A análise tem como base teórica os estudos de Figueiredo (2020), Bourdieu (2005), Mohanty (2006), Krupat (1989) e Bataille & Sands (1986), que discutem questões de gênero, identidade, colonialismo e literatura indígena.
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Diálogos com o romantismo inglês e alemão: a imaginação transformadora em Andersen
Gisele Gemmi Chiari
O conto “A pequena vendedora de fósforos” (Den Lille Pige Med Svovlstikkerne), de Hans Christian Andersen, foi publicado pela primeira vez em dezembro de 1845 e, posteriormente, em 1848, foi incluído no livro Nye Eventyr. A narrativa se destaca pela ausência de um final feliz, evidenciando o que o autor considerava problemas sociais graves, como a miséria e a exploração infantil. No entanto, o sofrimento e a própria morte são sublimados pela protagonista, que imagina ascender ao céu ao lado de sua falecida avó. O duplo movimento de apontar para as tragicidades advindas das desigualdades sociais e, ao mesmo tempo, propor que a solução para os oprimidos seria por meio da imaginação e do metafísico manifestaria a predisposição romântica de Andersen devida ao seu diálogo com autores ingleses e alemães. Para os poetas românticos, a imaginação é a força transformadora e criadora que liberta a humanidade dos limites sensíveis e a eleva ao divino. Assim, o objetivo deste estudo é analisar o conto em questão demonstrando a presença da estética romântica na poética de Hans Christian Andersen, sobretudo a valorização da imaginação e do sentimento em detrimento da razão, o enaltecimento da natureza como possibilidade da experiência sublime e o protagonismo de personagens fracos e oprimidos. Para tanto, nos valeremos de pesquisa bibliográfica incluindo poetas e teóricos que se detiveram sobre a questão da imaginação e da natureza na estética romântica, como os ingleses Coleridge, Wordsworth e Maurice Bowra, o americano M.H. Abrams, e os alemães Kant, Schiller, Goethe e Schelling.
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Mediação de leitura na primeira infância: jogo simbólico e performance no conto “O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen
Gillian Ichiama
Vera Bastazin
Este trabalho propõe refletir sobre a mediação de leitura literária na primeira infância, articulando o jogo simbólico às dimensões performativas do conto O Patinho Feio, de Hans Christian Andersen. Parte-se da compreensão da literatura como experiência estética e relacional, que convoca à escuta sensível, à imaginação e à expressão simbólica da criança (Medeiros, 2021). O objetivo é evidenciar / colocar em destaque práticas de mediação de leitura na educação infantil que mobilizam dramatizações, brincadeiras e performances como formas de apropriação do texto literário. O corpus de investigação é O Patinho Feio, cuja estrutura narrativa, marcada por ambiguidade, lirismo e fabulação, favorece deslocamentos imaginativos e a construção compartilhada de sentidos. fundamentação teórica apoia-se nos estudos de Juliana Pádua Medeiros (2021), que discute os caminhos da mediação literária na primeira infância, e nas contribuições de Paul Zumthor (2007), ao conceber a leitura como performance, entendida como acontecimento estético, situado na voz e no corpo. Nessa perspectiva, a mediação literária configura-se como um gesto poético que possibilita à criança experimentar a linguagem como forma de ser, sentir e conhecer o mundo. Ao transformar a escuta em vivência, o mediador amplia as possibilidades de leitura, promovendo um encontro entre texto, corpo e subjetividade, essencial à formação do leitor literário desde os primeiros anos de vida.
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A pequena notável: fragilidade e potência simbólica em “Polegarzinha”
Goimar Dantas de Souza
A imaginação fabular de Hans Christian Andersen perpassa toda a sua contística, evidenciando a genialidade do autor em inúmeras criações. Ao repertório de suas narrativas somam-se, ainda, influências e inspirações colhidas nas diversas viagens realizadas ao longo de sua trajetória como pesquisador e escritor. Polegarzinha constitui uma dessas tramas em que se entrelaçam, de modo exemplar, a inventividade artística e a presença de motivos característicos dos contos de fadas e do universo maravilhoso, originando um enredo cuja tessitura detalhada revela a sofisticação de sua arquitetura textual.
Nesta comunicação, fundamentada nas reflexões de Helm (2023), Majumdar; Chakrabarty (2024) e Zipes (2000; 2023), propõe-se demonstrar que, para além da riqueza de inspirações que alimentam o relato, Polegarzinha integra o conjunto de personagens que, embora delineadas por uma compleição física singular — associada à beleza, à fragilidade e à delicadeza que marcam suas aventuras fabulosas —, distinguem-se também pela força e pela resiliência necessárias ao enfrentamento de desafios complexos. Ao longo de sua jornada, pontuada por sequestros, frio, fome, solidão e pela iminência de um casamento indesejado com uma toupeira cega — figura insensível, afeita à escuridão e construída como contraponto ao espírito iluminado da protagonista —, a heroína afirma sua autonomia e capacidade de resistência. A ânsia por liberdade e salvação encontra ressonância no voo de uma andorinha, espécie de fênix rediviva graças à dedicação, à solidariedade e à empatia de Polegarzinha. Esses valores, caros ao universo anderseniano, compõem o perfil amoroso e altruísta da protagonista, reafirmando-a como símbolo de superação e esperança.
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Reescrevendo Andersen: subjetividade e crítica feminista em dois contos de Emma Donoghue
Guilherme Magri da Rocha
Vanessa Hagemeyer Burgo
A reescrita feminista tem sido um eixo produtivo dos contos de fadas contemporâneos, desafiando narrativas que historicamente restringiram o papel da mulher a arquétipos de passividade ou de sacrifício. Esta contribuição tem como objetivo analisar dois desses contos: "The Tale of the Bird” e “The Tale of the Voice”, presentes na coletânea Kissing the Witch: Old Tales in New Skins (1993), de Emma Donoghue. São textos que estabelecem um diálogo intertextual, respectivamente, com "Polegarzinha" e "A Pequena Sereia", de Hans Christian Andersen, reelaborando seus enredos de modo a problematizar a naturalização de papéis de gênero. A análise será conduzida à luz da crítica feminista, com ênfase na construção de subjetividades que emergem da experiência corporal, do desejo e da relação com o mundo natural. Busca-se demonstrar como a obra de Donoghue abre espaço para finais alternativos, não normativos, que privilegiam a agência, a autonomia e outros modos de existência. Seus contos de exemplificam um gesto crítico e criativo que amplia as possibilidades interpretativas do cânone de Andersen, inscrevendo nele vozes de mulheres insurgentes e horizontes de liberdade.
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“O Soldadinho de Chumbo”, de Andersen: experimentação e tradução visual em Quadrinhos
Helena Renato Dalfre
Marisa de Oliveira Mokarzel
Esta comunicação apresenta uma adaptação em Quadrinho mudo do conto “O Soldadinho de Chumbo”, de Hans Christian Andersen, realizada durante a graduação em Licenciatura em Artes Visuais para a matéria de Laboratório de Linguagem Digital. A obra foi inteiramente pintada à mão, com guache e aquarela sobre papel, explorando as possibilidades da narrativa visual sequencial sem o apoio do texto verbal. O objetivo principal é investigar as potencialidades e os limites da tradução intersemiótica, entendida como a transposição de um texto literário para outro sistema de linguagem e signos, no caso, o das Artes Visuais e dos Quadrinhos. O desenvolvimento da análise envolve tanto a própria obra finalizada, quanto os relatos do processo criativo, permitindo refletir sobre as escolhas artísticas que guiaram a adaptação. Como fundamentação teórica, para além do próprio conto do autor, “Quadrinhos e Arte Sequencial”, de Will Eisner, e diversas referências de storyboards e ilustrações infantis clássicas foram consultadas. Busca-se, assim, evidenciar como a arte sequencial, a ausência de palavras e o uso expressivo da cor podem intensificar os sentidos do conto original, levando-o para outros suportes e públicos. Conclui-se que essa experiência de criação valoriza ainda mais a obra de Andersen e traz luz ao potencial das traduções intersemióticas como campo de investigação artística e acadêmica.
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Andersen nei Disegni di Ragazzi Italiani: interfaces entre literatura e desenho infantil no contexto pós-Segunda Guerra Mundial
Ingrid Dittrich Wiggers
Entre 1951 e 1955, em comemoração aos 150 anos de Hans Christian Andersen, foi promovido pela Red Barnet, sob os auspícios da International Union for Child Welfare, um concurso internacional de desenho infantil. O principal objetivo deste trabalho é analisar interfaces entre literatura e desenho infantil no âmbito da educação no período pós-Segunda Guerra Mundial, em especial na Itália. As principais fontes consultadas estão preservadas no arquivo histórico do Istituto Nazionale di Documentazione per l’Innovazione e la Ricerca Educativa (INDIRE), em Firenze, incluindo documentos, periódicos, manuais e os próprios desenhos. Naquele contexto, no lugar do ensino transmissivo, a escola deveria proporcionar um ambiente de experimentação por parte dos alunos, que deveriam ser auxiliados pelo professor nesse processo de descoberta. Os livros didáticos, considerados inadequados pelas marcas da ideologia fascista do período anterior, deveriam ser substituídos por obras escritas diretamente pelas crianças. No programa escolar italiano, a literatura foi integrada ao desenho, pois este representa um subsídio didático para a aprendizagem ativa. Como desdobramento do concurso internacional de Andersen, foi publicado um livro intitulado Andersen nei Disegni di Ragazzi Italiani, com ilustrações produzidas exclusivamente por crianças, estabelecendo aderência ao novo currículo. Em conclusão, o concurso de Andersen esteve articulado ao movimento de renovação pedagógica observado na Itália, valorizando a expressão da criança. Para além disso, considerando que a literatura e o desenho infantil estavam no centro do concurso internacional, compreendemos sua importância não apenas para favorecer a criatividade de crianças, mas também como interfaces de uma política de âmbito global.
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“A Sereiazinha” e onde os oceanos se encontram: um diálogo marinho entre Hans Andersen e Marina Colasanti
Isabella Albuquerque Gonçalves
Os contos maravilhosos “A Sereiazinha”, de Hans Christian Andersen, e Onde os oceanos se encontram, de Marina Colasanti, têm como cenário comum o mar e como protagonistas seres femininos associados às águas. Enquanto Andersen nos apresenta uma sereia jovem e curiosa sobre a vida dos humanos, em uma narrativa mais alinhada ao mundo infantil e às aspirações adolescentes, as personagens de Marina são duas ninfas irmãs responsáveis por recolher os corpos de navegantes afogados, tarefa que está associada ao universo do trágico. Os contos são escritos em épocas e sociedades distintas, Andersen escreve na Dinamarca do início do século XIX, enquanto Colasanti escreve no início do século XXI; ainda assim, há elementos em diálogo nestes dois contos que podem apontar para uma origem comum e indicar semelhanças entre estas duas narrativas pertencentes ao mesmo gênero literário. Há também em comum entre os contos a presença do feminino que é apresentado de forma distinta nas duas narrativas. O objetivo deste trabalho é contrapor a construção das personagens femininas, dos temas e do elemento trágico nestes dois contos de fadas e observar convergências e divergências entre as narrativas. Para alicerçar este estudo convocamos Nádia Gotlib, Walter Benjamin, Pierre Levy, Ovídio, Homero e outros autores.
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Os ecos das fadas: leituras de Andersen dos nossos tempos
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Isabella Morelli Esteves
Em sua autobiografia, Andersen diz que sua vida foi um conto de fadas e que desde a infância contava histórias nas quais era a figura principal. Entre esses heróis, observamos figuras como o patinho feio e a pequena sereia, que vivem momentos de alteridade e exclusão. Jane Yolen afirma que Andersen uniu tudo o que havia de bom e ruim, belo e feio em sua vida e transformou em lindas histórias, longevas pela forma como tocam a natureza humana. Conceição Evaristo, por sua vez, ao falar sobre escrevivência, nota como mesmo a escrita que parte de vivências específicas pode abarcar um “sentido de universalidade humana” ao retratar com humanidade as personagens que “outros discursos literários negam, julgam, culpabilizam ou penalizam” (Evaristo, 2020, p. 31). A partir de seus contos, cartas, diários e relatos, Andersen mobilizou interpretações diversas sobre sua obra e vida, muitas das quais associaram a Andersen e seus personagens vivências queer e neurodivergentes. Não é possível atribuir de forma absoluta rótulos que sequer existiam em seu tempo. Podemos, contudo, buscar entender como seus escritos movimentam tais interpretações e onde pulsam os sentimentos de dissidência que conectam tão fortemente os leitores. Essa pesquisa parte das experiências de escrita e leitura — sendo sua autora uma pessoa queer e autista que também escreve a si mesma e que, ao ler Andersen, busca e encontra ali espelhos de si — e da crença de que, após a morte do autor, ainda é possível que leitor e autor escrevam juntos a ficção, em uma colaboração inacabável.
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A formação do leitor em jogo: uma proposta de mediação lúdica de “O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen, e “O passarinho”, de Flávio de Souza
Joana Marques Ribeiro
Esta comunicação propõe reflexões sobre o papel da mediação como prática essencial na formação do leitor literário contemporâneo. Compreendendo a literatura como um jogo estético-simbólico e o leitor como um ser que se (trans)forma na relação com o outro, com os textos e com o mundo, reconhecemos a mediação como um processo dialógico e lúdico, que provoca e constrói pontes entre os horizontes do texto e do leitor. Nesse sentido, propomos a mediação dos contos “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen, e “O passarinho”, de Flávio de Souza (1995). Ambas as narrativas abordam poeticamente temas como identidade, pertencimento e transformação, oferecendo ao leitor possibilidades de reflexão sobre si e sobre o mundo. Priorizando momentos de escuta e de criação coletiva, evidenciaremos os diálogos intertextuais entre os contos a partir de estratégias de mediação pautadas em reflexões de Agamben (2007), Benjamin (2002), Huizinga (2008), Medeiros e Ribeiro (2024) e Ribeiro (2020). Por fim, notaremos como o aspecto lúdico da mediação torna-se um fio condutor significativo para o acesso a uma experiência singular com a literatura, possibilitando ao leitor e ao mediador adentrar no universo ficcional experienciando um acontecimento transformador da vida, enquanto seres de linguagem.
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“O Patinho Feio” entre o conto melancólico e o “edutenimento” televisivo: do texto literário de Hans Christian Andersen à série animada de Josep Viciana
João Paulo Lopes de Meira Hergesel
Este estudo analisa o processo de adaptação transcultural e intermidiática do conto “O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen, para a série animada homônima de 1997, criada por Josep Viciana. O objetivo é contrastar a obra literária original com sua recriação seriada, investigando as transformações narrativas, temáticas e estéticas. O corpus de análise é composto pelo conto dinamarquês e pela produção da Neptuno Films. A pesquisa se fundamenta nas teorias da adaptação de Linda Hutcheon, que aborda a transposição do modo de “contar” para o de “mostrar”; de Linda Seger, que foca na necessidade de expansão de arcos e personagens para o formato televisivo; e de Robert Stam, que propõe uma visão da adaptação como um ato de reescrita dialógica e intertextual. Os principais resultados indicam que a obra de Andersen, um reflexo autobiográfico, melancólico e psicologicamente denso de sua experiência como outsider, é transformada pela série em uma narrativa episódica, otimista e com propósito de “edutenimento”. A jornada introspectiva do protagonista é externalizada através da criação de um elenco de apoio e de vilões recorrentes, deslocando a angústia existencial para lições sobre amizade, resiliência e ecologia. Conclui-se que a animação de Viciana é uma recriação autônoma que, embora preserve o tema central da aceitação, “indigeniza” e expande o material-fonte para criar um produto comercialmente viável e pedagogicamente alinhado às demandas do mercado audiovisual infantojuvenil global do final do século XX.
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“A Vendedora de Fósforos” e a potência da animação como dispositivo lúdico na mediação de leitura
Juliana Pádua Silva Medeiros
Esta comunicação propõe um exercício reflexivo sobre a mediação de leitura como jogo simbólico, tomando como corpus de análise a animação “A Vendedora de Fósforos” (2006), uma releitura do conto homônimo de Hans Christian Andersen produzida pelos estúdios Disney. O objetivo central da proposta é investigar como a transposição da linguagem verbal para a audiovisual potencializa o encontro lúdico e estético com a obra, configurando um terreno fértil para a construção de sentidos, haja vista que o curta-metragem se torna um poderoso dispositivo na valorização da escuta sensível, do olhar crítico e da imaginação criadora. A ausência de diálogos na adaptação intensifica a experiência sinestésica, convocando o leitor-espectador a interpretar a narrativa a partir da trilha sonora, das expressões faciais e dos contrastes visuais que acentuam a tensão entre maravilhamento e melancolia, bem como esperança e realidade, traço característico na prosa de Andersen. Com base nos pressupostos teóricos de Bajour (2012 e 2023), Chambers (2023), Munita (2024), Plaza (1987), Medeiros (2015 e 2024), Ribeiro (2011, 2020 e 2024), Stam (2006), entre outros, discute-se a mediação não como uma mera decodificação, mas como um gesto interativo que convida a jogar com os significados. Nessa perspectiva, a referida animação, ao explorar o “faz de conta” por meio das visões mágicas da protagonista, permite ao mediador elaborar estratégias que ficcionalizam a vida como forma lúdica de conhecê-la.
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A ilusão no conto “A Rainha da Neve”, de Hans Christian Andersem, e na obra O Maravilhoso Mágico de Oz, de L. Frank Baum
Kellen da Silva Nascimento
A presente comunicação tem como objetivo refletir sobre a trajetória das protagonistas Gerda e Dorothy, de “A Rainha da Neve” (1844), de Hans Christian Andersen, e O Maravilhoso Mágico de Oz (1900), de L. Frank Baum, respectivamente, tendo em vista que a jornada de ambas é marcada pelo obstáculo da ilusão, ou seja, em ambas as narrativas as pessoas, com exceção das protagonistas, não conseguem enxergar a verdade, já que sua visão foi comprometida. Enquanto em A Rainha da Neve a população tem seus olhos e seu coração afetados por cacos do espelho construído pelo diabo, em O Maravilhoso Mágico de Oz os habitantes da Cidade das Esmeraldas usam constantemente óculos verdes que os fazem acreditar que o local onde moram de fato é dessa cor – acontecimento orquestrado pelo igualmente ilusório mágico, que governa a cidade. A grandiosidade dos obstáculos é derrotada pelas heroínas, as quais são crianças e, assim, evidenciam a dicotomia entre pequenez e grandeza. O trabalho encontra suas bases teóricas em Nelly Novaes Coelho, Maria Tatar, Michael Hearn e Ana Carolina Lazzari Chiovatto.
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Do Gelo ao Autoconhecimento: Frozen como Reescrita Contemporânea de A Rainha da Neve
Lídia Carla Holanda Alcantara
A animação Frozen (Disney, 2013), embora creditada como livremente inspirada no conto A Rainha da Neve (1844), de Hans Christian Andersen, constitui um exemplo do que Linda Hutcheon (2013) denomina “adaptação como criação autônoma” — um processo de transcodificação que, longe de se limitar à fidelidade textual, promove a ressignificação da obra original em outro regime estético e cultural. A narrativa de Andersen, centrada em uma alegoria do bem contra o mal e da redenção cristã, é radicalmente transformada: a figura da rainha gélida torna-se Elsa, uma personagem humanizada e protagonista de um drama familiar, articulado em torno do medo, da repressão e da autoaceitação. Ismail Xavier (2003), ao discutir a adaptação como tradução intersemiótica, destaca a reconfiguração de elementos estruturais e temáticos quando há migração de um meio literário para o audiovisual. Frozen ilustra essa transposição ao reconstruir o conflito em termos psicológicos e afetivos, substituindo a luta maniqueísta do conto por uma jornada de descoberta pessoal. A estética da Disney, com sua ênfase em narrativas de empoderamento e narrativa musical, contribui para um ethos contemporâneo, voltado à identidade e à sororidade. Ana Balogh (2011), por sua vez, chama atenção para a adaptação como lugar de tensão entre memória cultural e reinvenção. Frozen apaga deliberadamente as marcas religiosas e morais da fábula original, propondo uma leitura alinhada aos valores de certa forma progressistas do século XXI — uma “Rainha da Neve” que canta, sente e escolhe, mais do que impõe.
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As novas roupas do rei e a vaidade dos poderosos: Hans Christian Andersen revisitado na literatura infantil e juvenil brasileira
Lígia Regina Máximo Cavalari Menna
Hans Christian Andersen apresenta uma grande gama de contos autorais, e outros inspirados na tradição europeia, principalmente nos seus primeiros anos de contista, como é o caso de "A Roupa Nova do Imperador" (1837), que remonta ao episódio “De lo que aconteció a un rey con los burladores que hicieron el paño” do El Conde Lucanor (1335), de Dom Juan Manuel, ao qual acrescenta seu estilo único, com descrições bem construídas e um humor raro para tratar de um tema recorrente em sua obra: a vaidade dos poderosos. Em uma rede contínua de intertextualidades e recriações, o livro As roupas novas dos reis, de José Roberto Torero, ilustrado por Marcus Aurelius Pimenta (2021) apresenta um nítido diálogo com o conto andersiano. Nesse sentido, esta comunicação propõe um estudo comparado entre o conto andersiano e o livro, tendo como objetivo analisar os diálogos intertextuais que se estabelecem entre essas obras, considerando também a composição verbo-visual comum às obras contemporâneas dirigidas aos públicos infantil e jovem. Como fundamentação teórica, toma-se como suporte o conceito de intertextualidade, segundo Julia Kristeva (1974), entendida como a inserção de um texto em outro, de modo que todo texto é um mosaico de citações. Além disso, recorre-se à teoria da transtextualidade de Gérard Genette (2010), com destaque para o pastiche — imitação lúdica e crítica que, no caso da obra de Torero, revisita o conto andersiano.
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Do castigo à resistência: revisões feministas em Colasanti, Andersen e Caio Fernando Abreu
Lívia Maria Rosa Soares Oliveira
Esta comunicação propõe analisar como narrativas literárias infantis e juvenis revelam tanto mecanismos de dominação quanto possibilidades de resistência feminina. O corpus inclui o conto “A mulher ramada”, de Marina Colasanti, a narrativa clássica “Os sapatinhos vermelhos”, de Hans Christian Andersen, e a releitura homônima de Caio Fernando Abreu. Em Colasanti, a mulher gradualmente tomada pelas ramagens simboliza a limitação da experiência feminina e o silêncio imposto à sua subjetividade, dialogando com a ideia de Butler (1990; 2004) sobre performatividade de gênero e construção social da identidade. Andersen, ao narrar a punição da jovem por desejar os sapatinhos vermelhos, evidencia como normas sociais e religiosas disciplinam o corpo feminino, enquanto Abreu ressignifica essa metáfora para refletir tensões contemporâneas de identidade, gênero e desejo. A análise se ancora ainda na perspectiva de Zilberman (1995), que discute a literatura infantil como espaço de produção cultural e construção de sentido, permitindo compreender como narrativas aparentemente simples transmitem valores sociais, normas de gênero e oportunidades de resistência. Assim, as histórias analisadas mostram que a literatura infantil e juvenil não apenas reproduz padrões históricos de opressão, mas também oferece espaços de reinvenção, abrindo caminho para leituras críticas sobre corpo, desejo e interseccionalidade.
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O mito da infância feliz: diálogos entre o conto “A pequena vendedora de fósforos” e o romance "O pássaro pintado"
Luciane Bonace Lopes Fernandes
Para Abramovich (1983), as infâncias não se constituem como período pleno de felicidade e tranquilidade, mas também carregam tristezas e sofrimentos inerentes não apenas a problemas sociais, mas a um arsenal de circunstâncias e perdas que podem gerar desequilíbrio emocional, introspecção e, muitas vezes, sofrimento à criança. Pautados no conto “A pequena vendedora de fósforos” (1848), de Hans Christian Andersen, e no romance O Pássaro Pintado (1965), do escritor polonês Jerzy Kosinski, a presente comunicação propõe uma breve reflexão sobre infâncias em situação extrema, apontando nessas obras alguns dos desafios enfrentados por crianças e adolescentes de diferentes períodos históricos. Enfocando o contexto social e histórico das personagens e suas estratégias de sobrevivência, propomos o diálogo intertextual entre as obras com base nos escritos de Bines (2022) e Abramovich (1983). As reflexões nos dirigem ao entendimento de que em ambas as obras é possível observar episódios de insensibilidade e desamparo por parte do adulto, violência, solidão e crueldade.
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“A Menina dos Fósforos”: do conto ao cinema de animação — formas artísticas e deslocamentos semióticos
Maria Zilda da Cunha
Maria Auxiliadora Fontana Baseio
Nascido na Dinamarca, no século XIX, Hans Christian Andersen fez parte da primeira geração romântica, mas suas histórias cruzaram as fronteiras do tempo e do espaço, sendo recriadas permanentemente. Partindo da compreensão do conto como forma artística passível de múltiplas reinterpretações em linguagens distintas, analisa-se, à luz dos Estudos Comparados de Literatura, como os elementos poéticos, simbólicos e narrativos do conto “A Menina dos Fósforos” são recriados no cinema de animação, resultando em deslocamentos semióticos significativos. Nesta comunicação, apresenta-se The Little Match Girl, uma adaptação feita por Roger Allers, em 2006, que, ao dialogar com a narrativa publicada em 1845, gera uma experiência visual e emocional que encanta o público contemporâneo, considerando a escolha da paleta de cores, o estilo fluido e expressivo, o cenário criado a partir de recursos contrastivos, os simbolismos, a trilha sonora em sintonia com os elementos visuais, articulados para tornar coerente a expressão estética. Por fim, a animação não só traz uma nova camada à obra de Hans Christian Andersen, como também faz reverberar uma reflexão sobre temas atemporais, como a pobreza, a indiferença social e a busca por conforto em razão de um mundo frio e distante, criando uma obra que conecta o espectador com a vulnerabilidade humana, fazendo-o pensar sobre o valor do afeto e da solidariedade.
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A clausura como trauma: “The Yellow Wallpaper” e ecos feministas a partir dos contos de fadas
Mylena Letícia de Lima Ferro Felix
Carla Alexandra Ferreira
Nas narrativas de tradição de conto de fadas, a clausura feminina aparece como motivo recorrente: princesas em torres, sereias que perdem a voz, corpos postos em suspensão à espera de salvação. Este trabalho propõe uma leitura de “The Yellow Wallpaper” (1892), de Charlott Perkins Gilman, como uma desconstrução da clausura enquanto possibilidade de salvação e final feliz. O conto apresenta a reclusão doméstica como patologia social, na qual o silenciamento da escrita e da fala, bem como o controle médico do corpo feminino produzem no lugar de algum encantamento, o trauma. Ao aproximar a experiência da narradora de arquétipos como “Rapunzel” e a “Pequena Sereia”, busca-se evidenciar como a literatura do século XIX já ensaiava um revisionismo feminista que seria retomado pelas releituras contemporâneas dos contos de fadas. A análise será conduzida a partir da Ginocrítica de Elaine Showalter, que se dedica a compreender a literatura escrita por mulheres em sua especificidade histórica e cultural. Ao analisar a produção literária de autoras e a forma como suas experiências singulares se diferenciam das tradições narrativas estabelecidas pelo olhar masculino, a ginocrítica permite entender como Gilman inscreve na narrativa a vivência do corpo feminino, sua subjetividade e seu direito à linguagem. Assim, a clausura em “The Yellow Wallpaper” pode ser lida, também, como experiência historicamente situada vivida por mulheres.
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A sereiazinha: a representação da complexidade identitária feminina no conto de Hans Andersen
Natacha dos Santos Esteves
Wilma dos Santos Coqueiro
Hans Christian Andersen (1805-1875), expoente do Romantismo dinamarquês, revolucionou a literatura infantil no século XIX ao combinar elementos do maravilhoso com críticas sociais, criando contos de fadas originais e profundamente conectados com as questões de seu tempo. Suas narrativas, frequentemente melancólicas e com finais trágicos, exaltam a sensibilidade, a fé cristã e a fraternidade, refletindo não apenas os dilemas e contrastes sociais de sua época, mas também sua própria experiência de vida marcada por obstáculos e superações. Dentre suas obras mais emblemáticas, destaca-se “A Sereiazinha” (1836), conto que inspirou a animação “A Pequena Sereia”, lançada pela Disney em 1989. Embora ambas compartilhem o enredo básico — uma sereia que se apaixona por um príncipe humano —, as narrativas apresentam diferenças significativas: enquanto a adaptação cinematográfica opta por um final feliz e romântico, o conto original retrata a dor da renúncia, o sacrifício em nome do amor e a morte como redenção espiritual de sua existência efêmera de sereia. Neste trabalho, propomos uma leitura crítica de “A Sereiazinha” à luz dos estudos da literatura infantil e de gênero, destacando a complexidade da personagem-título. A jovem sereia é ousada e determinada, mas também presa aos valores femininos do século XIX, como a submissão, o sofrimento e o ideal de amor incondicional. O conto evidencia a construção de uma identidade feminina marcada pelo silêncio e pelo sacrifício, mas também abre espaço para reflexões contemporâneas sobre autonomia, desejo, identidade e autoafirmação. Assim, buscamos compreender como Andersen antecipa discussões ainda relevantes no debate sobre a representação feminina na literatura.
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Diálogos entre Hans Christian Andersen e Monteiro Lobato: vida, obra e mediação
Patrícia Aparecida Beraldo Romano
Ana Lúcia de Oliveira Brandão
Apesar de Hans Christian Andersen e Monteiro Lobato não terem sido contemporâneos, tiveram uma trajetória literária pontuada por semelhanças. A primeira obra publicada por ambos foi dedicada ao público adulto: O Improvisador (1835) e Urupês (1918). O sucesso foi estrondoso para ambos. Curiosamente, passaram a se dedicar ao público infantil, sendo imortalizados por sua obra voltada às infâncias e com características que os aproximam. Andersen tornou-se um nome muito lido e conhecido no continente europeu enquanto Lobato fez o mesmo na América Latina. Por meio da literatura comparada pretendemos, nesta comunicação, levantar várias questões sobre essa possível aproximação da vida e da obra de ambos. Haveria um diálogo possível entre as personagens Patinho Feio e Emília, por exemplo? Como foi realizado, por ambos, o trabalho com a fantasia, que muito aproxima as suas obras? Andersen foi tido com um grande contador de histórias para crianças e pessoas da Corte. Lobato conversou, em cartas, por décadas, com crianças sobre seus sonhos. Ambos sabiam que conhecer bem os anseios de seu público leitor colaboraria com o sucesso de suas obras. Para essa discussão, nos serviremos de teóricos como Coelho (2007), Zilberman (1992), Lobato (1956), Nitrini (2010), Romano (2023), dentre outros.
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Ler em tempos de silêncio: Hans Christian Andersen na travessia da pandemia
Paula Gardenia Lucena Gallego
A pandemia da Covid-19, ao impor o isolamento social, redefiniu a relação dos sujeitos com o tempo e com a leitura, transformando-a em espaço de resistência e reelaboração simbólica da experiência coletiva. Nesse contexto, a obra de Hans Christian Andersen revelou-se um corpus fértil para refletir sobre a condição humana em momentos de crise. Eu como frequentadora da biblioteca pública que tem seu nome no Tatuapé desde criança, fiz voluntariamente lives lendo/mediando um de seus contos uma vez por semana, e abrindo para diálogos e debates com quem pudesse participar. A leitura de contos como “A Menina dos Fósforos”, “Polegarzinha” e “O Patinho Feio” evidenciou o caráter universal e atemporal das narrativas andersonianas, cuja dimensão simbólica permitiu múltiplas camadas humanas e literárias de interpretação e fruição. Mais do que textos destinados ao público infantil, os contos se mostraram dispositivos literários que articulam imaginação, crítica social e elaboração das fragilidades humanas e simbólicas para todas as idades com suas infâncias. A experiência de leitura durante a pandemia apontou para a relevância do estudo da literatura como prática formativa, capaz de mobilizar afetos, despertar consciência crítica, trazer relações e empatia mesmo a distância e fortalecer vínculos entre o leitor e a tradição cultural. Assim, ao revisitar Andersen em meio ao confinamento, constatou-se a permanência, potência e a atualidade de sua obra, que, em diferentes contextos históricos, oferece ferramentas de interpretação e resistência subjetiva diante da vulnerabilidade, da solidão e da esperança. À luz de Bettelheim (2014), Betterman (2013), Coelho (2000 e 2012), Colomer (2017) e Corso (2006), propõe-se, então, refletir sobre as relações simbólicas e humanas que esses contos reverberam em seus leitores, inclusive em momentos extremos como a pandemia.
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Baldias e simplórias flores: diálogos entre as poéticas de Andersen e António Botto
Paulo César Ribeiro Filho
O poeta, dramaturgo e contista António Botto (1897-1959), um dos mais afamados nomes da poesia portuguesa nos anos 20 e 30, teve sua biografia profundamente marcada pelo escândalo que a livre expressão de sua homossexualidade causou à época. Tal repercussão tem pautado a recepção crítica de sua obra: o estudo da literatura bottiana encontra-se concentrada e mais desenvolvida em torno das representações artísticas do (homo)erotismo em suas poesias, canções, novelas e textos teatrais. Dois dos principais pesquisadores da vida e obra de António Botto, Anna Klobucka (2018) e António Sales (2018), salientam esse baixo interesse da crítica pela literatura infantil do autor. Porém, em contraposição a esse desapreço está a aparente popularidade da literatura para crianças de António Botto, sugerida pelo fato de que apenas dois de seus títulos receberam traduções para a língua inglesa: O Livro das Crianças (The Children’s Book), traduzido por Alice Lawrence Oram, e Canções (Songs), com tradução de Fernando Pessoa. No conto “Sonho de artista”, presente na obra em questão, António Botto, à moda de Hans Christian Andersen em sua poética feérica minimalista, convida o homem a reencantar-se a partir do chamado à redescoberta da (sobre)natureza dos pequenos seres. A presente comunicação tem, portanto, o objetivo de promover a redescoberta da literatura infantil do autor português em perspectiva comparativista, tendo como referência a poética anderseniana.
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Releituras do maravilhoso: a (re)interpretação do conto “O patinho feio”, por Ruth Rocha, Tatiana Belinky e Bia Villela
Raquel Pereira Soares
José Firmino de Oliveira Neto
Entre o ontem dos contos maravilhosos e o hoje das releituras contemporâneas dessas narrativas é que se situa a pesquisa que apresentamos. Assim, objetivamos uma análise literária crítico-reflexiva que (re)pensa/problematiza a (re)interpretação do conto “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen, pelas escritoras Ruth Rocha (2010), Tatiana Belinky (2015) e Bia Villela (2018), com vista a localizar marcas do tradicional e (re)invenções do contemporâneo que reiteram reflexões sobre o mundo marcadas por novos discursos sociais. Para tal, realizamos uma leitura sistemática das três obras, aferindo, sobremaneira, duas dimensões: forma, a qual compreende toda a organização estética da obra: ilustrações, gramatura das folhas, tamanho, projeto gráfico; e conteúdo: relacionado às aproximações ou distanciamentos do texto original proposto por Andersen, que, para esta análise, utilizou a versão de Jahn (2017). A princípio, percebemos que as três obras, no que se refere à forma, apresentam um projeto voltado para o público infanto-juvenil, no entanto, diferem-se quanto às ilustrações, apresentando, fundamentalmente, duas propostas distintas, uma baseia-se em desenhos abstratos, usando linhas e formas geométricas, e as outras duas se aproximam do contexto social com cenas cotidianas. Quanto ao texto verbal, percebemos que uma se assemelha à versão original do conto, e as outras duas apresentam uma adaptação ou um reconto da história, afastando-se do texto original e deixando pelo caminho detalhes, expressões, sentimentos e acontecimentos que limitam a experiência estética e verbal do público leitor em formação.
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Literatura e Imagem em Diálogo: “Os Cisnes Selvagens” e a Experiência Juvenil
Regina Célia Ruiz
O conto “Os Cisnes Selvagens”, de Hans Christian Andersen, é uma narrativa simbólica que aborda temas universais como transformação, sacrifício, identidade e pertencimento. Esta pesquisa analisa a obra a partir da perspectiva da intertextualidade, estabelecendo diálogos com narrativas contemporâneas da literatura juvenil, em especial o trabalho da artista plástica Beatriz Martín Vidal. Além disso, considera outros diálogos possíveis com a narrativa, explorando variações e releituras que ampliam a compreensão do conto. O objetivo é compreender como os temas centrais ressoam nas experiências existenciais dos jovens de hoje, articulando questões de autoconhecimento, percepção do outro e enfrentamento de desafios emocionais e sociais. A análise inclui o texto original de Hans Christian Andersen, obras literárias juvenis contemporâneas e produções visuais que dialogam com a narrativa. A fundamentação teórica apoia-se em estudos de Jack Zipes, Fanuel Hanán Díaz, Walter Benjamin, Georges Didi-Huberman, Giorgio Agamben, entre outros. Esta investigação evidencia a relevância das narrativas clássicas, identificando reflexos de experiências contemporâneas e ampliando o diálogo entre literatura, imagem e construção de sentidos para jovens leitores. Os resultados sugerem que a obra de Andersen permanece um território de reflexão sobre valores humanos e transformações pessoais, ao mesmo tempo em que estabelece relações afetivas e sociais da juventude contemporânea.
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De Sereiazinha a Pequena Sereia: a representação negra nos contos de fadas
Rejane Mendes Duran Dirques Cavalcante
As habilidades de ouvir e contar histórias ajudaram Hans Christian Andersen (1805-1875) no registro da lenda da sereia, que mobiliza as águas internas dos seres humanos até os dias atuais. O objetivo do presente trabalho é analisar a representação negra no reconto dos contos de fadas e a reconfiguração da personagem sereia na literatura infantojuvenil. Para alcançar esse propósito, analisaremos as obras: A pequena sereia, de Cristina Agostinho e Ronaldo Simões Coelho, com ilustrações de Walter Lara, Edições Mazza (2022) em diálogo com o conto A sereiazinha, de Hans Christian Andersen (1996). No contexto histórico em que os contos de fadas foram escritos, não havia representatividade negra na literatura destinada a educar futuros adultos. As pessoas negras não tinham sua humanidade reconhecida e tampouco eram protagonistas em uma obra literária. Desse modo, podemos questionar qual a importância da representação negra nos contos de fadas. Uma hipótese é de que seja para o cumprimento da Lei no 10.639 de 2023, que instituiu o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e africana em todos os níveis de Educação. Outra, é de que, independentemente da existência de uma lei, o leitor negro tenha necessidade de também ser representado na literatura. Essa reflexão vem ancorada nos estudos teóricos de Nelly Novaes Coelho (2022), Maria Tatar (2013), Isildinha Baptista Nogueira (2021), bell hooks (2021) e outros. Após análises evidenciando a fundamentalidade de recontar as histórias por outras perspectivas, constatamos que a literatura infantojuvenil negra tem a representatividade como um compromisso étnico com os leitores, mobilizados pela afetividade e escolhas humanas presentes no conto de Andersen.
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Palavra e Imagem em diálogo: análise da edição ilustrada de “A Pequena Sereia” no PNLD
Renata Pires Gavião
Esta apresentação visa analisar a relação entre texto e imagem na edição ilustrada de “A Pequena Sereia” (2010), de Hans Christian Andersen, publicada pela Editora SM Educação. Adaptada por Muriel Molhant, com tradução de Sérgio Marinho e ilustrações de Quentin Gréban, a obra compõe o acervo do Programa Nacional do Livro Didático para Alfabetização na Idade Certa (PNLD), sendo distribuída pelo MEC às escolas da rede pública brasileira, o que amplia o seu alcance e relevância no contexto da formação leitora infantil. O objetivo do trabalho é discutir de que maneira a interação entre palavra e imagem constrói sentidos e potencializa a experiência estética do leitor em processo de alfabetização. Para tanto, toma-se como corpus a edição supracitada, considerando seus aspectos narrativos, visuais e de composição gráfica. A fundamentação teórica apoia-se nos pressupostos dos estudos da literatura ilustrada e da leitura de imagens, conforme especificados por Nodelman (1988), Nikolajeva e Scott (2006), Oliveira (2008), Linden (2011) e Silva (2020), entre outros, que observam e problematizam o diálogo entre o verbal e o visual em obras ilustradas. Busca-se evidenciar como a ilustração de Gréban não apenas acompanha, mas expande o texto, criando camadas de significação que favorecem a leitura literária e o letramento visual. Pretende-se, assim, contribuir para as discussões sobre a importância de edições ilustradas no ambiente escolar e seu papel na mediação de leitura literária para crianças.
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A literatura infantil de Laís Corrêa de Araújo: das interseccionalidades em “Maria e companhia”
Rita de Cássia Silva Dionísio Santos
Laís Corrêa de Araújo (1929-2006), poeta, ensaísta e tradutora mineira, exerceu relevante papel no cenário intelectual brasileiro da segunda metade do século XX, tendo, o conjunto de sua obra, rendendo-lhe o Prêmio Thomas Mann de Viagem à Alemanha, o Prêmio Emílio Moura e o Prêmio Cidade Belo Horizonte. Sua produção, de qualidade estética inquestionável, tem sido, em parte, estudada nas últimas décadas. Contudo, os seus textos para crianças são matéria ainda desconsiderada pela crítica acadêmica especializada, o que demanda, portanto, uma abordagem crítica e científica criteriosa voltada a esse essencial segmento de seus processos criativos. Este trabalho (vinculado ao projeto de pesquisa “O infantil em Laís Corrêa de Araújo: teoria, crítica e história”, financiado pela Fapemig) abordará os livros infantis desta autora, em especial a narrativa “A empregada Maria”, que integra a coletânea Maria e companhia (Editora Brasil/América, Rio de Janeiro, 1983). Propõe-se uma discussão sobre a poética da autora (abordagem temática, texto verbo-visual, suas estruturas, formato e técnicas narrativas), nesse conto de fadas às avessas. A discussão pauta-se em Marisa Lajolo e Regina Zilberman (2006, sobre Literatura Infantil), Maria Ester Maciel (2017, sobre o inventário poético de Laís Araújo), Conceição Evaristo (2005, atinente à representação e à autorrepresentação da mulher negra na literatura brasileira), Angela Davis (2016, sobre gênero, classe e raça), entre outros. Pretende-se refletir sobre de que modo a narrativa possibilita rasurar, por meio da ironia e do riso da empregada Maria (mulher, pobre e preta), convenções sociais alicerçadas em estereótipos de raça, classe e gênero.
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A escrita de Viagens de Hans Christian Andersen sobre Portugal
Rogério Miguel Puga
Entre 6 de maio e 14 de agosto de 1866, Hans Christian Andersen (1805–1875) visitou Portugal, convidado por amigos, e redigiu e publicou (em 1868) as suas impressões sobre o país em Et Besøg i Portugal 1866 (Uma visita em Portugal em 1866), um interessante livro de viagens em que o famoso autor elogia a beleza pitoresca de Espanha e Portugal, nomeadamente subjetivas paisagens ecológicas, sonoras, literárias, académicas, familiares, históricas e etnográficas, que analisamos ao longo do nosso ensaio.
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Nas entrelinhas de Hans Christian Andersen: contos de fadas e as temáticas da dor
Rosemar Eurico Coenga
Considerado um dos precursores da literatura infantil no Ocidente, Andersen criou contos que tratam de questões perturbadoras, nas quais imperam as seguintes temáticas: dores, morte, abandono, violência, solidão, rejeição, dentre outras temáticas com finais trágicos. É pensando sobre os temas da dor e outros temas sensíveis que este trabalho será desenhado. As marcas da violência são um ponto comum dos contos de fadas, principalmente em suas origens, a Idade Média. O período medieval, segundo Coelho (2008), é marcado pela violência entre os humanos, pois “forças selvagens, opostas e poderosas, se chocam lutando pelo poder” (Coelho, 2008, p. 44). O estudo objetiva analisar e descrever, por meio de uma leitura crítico-interpretativa, a temática da dor, do desamparo e da violência nos contos “A pequena vendedora de fósforos” e “Sapatos vermelhos” (2011), pertencentes à obra de Hans Christian Andersen. O estudo se justifica pela necessidade de abordar temas que tocam os meandros da existência humana. A metodologia adotada segue, em seu delineamento, uma abordagem qualitativo-descritiva. A fundamentação encontra-se ancorada nas ideias de Nelly Novaes Coelho (2008), Jack Zipes (2023), Bruno Bettelheim (1980), Regina Michelli (2020), Marie-Louise Von Franz (1990), dentre outros. Como resultado, notamos a dor e a violência como marca do sentimento mais fortemente vivenciado pelos personagens nos contos de Andersen, dos quais sobressaem uma infinidade de outras questões existenciais que afetam a condição humana.
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“A sombra”: entre a pessoalidade e a construção da masculinidade
Samira dos Santos Ramos
No conto “A sombra”, escrito em 1847 por Hans Christian Andersen, são os trajes e a sua habilidade de agenciar poder que fazem com que a Sombra seja reconhecida como homem. Suas botas de verniz são parte do próprio verniz de masculinidade que garante a sua pessoalidade. Neste trabalho, inserido na área de literatura e sociedade e fundamentado nos estudos de gênero, discutiremos como o conto figura noções de pessoalidade (Bonella, 2009) e masculinidade (Grossi, 1995; Laqueur, 2007; Connell e Pearse, 2015), evocando-nos a pensar a condição instável do homem cisgênero após negadas as teorias essencialistas e naturalistas sobre a pessoa. Para tanto, usaremos como aporte metodológico o comparatismo literário, que admite a interdisciplinaridade entre literatura, filosofia e sociologia para compreender como, em Andersen, as interações sociais se tornam determinantes para a afirmação e reconhecimento do status da Sombra como humano e como homem cisgênero. Por fim, a compreensão desta condição como não intrínseca ao ser discute o status de ser homem na obra, status que pode inclusive ser extirpado, como ocorre com o sábio que termina como sombra de sua sombra. Em um complexo jogo literário com as construções de identidade e alteridade das personagens, o trabalho demonstra a significativa contribuição da obra de Andersen sobre um tema caro à contemporaneidade: a identidade de gênero.
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“O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen, e sua versão Disney, da série Silly Symphonies, de 1931
Sandra Trabucco Valenzuela
O presente trabalho propõe uma análise entre o conto “O Patinho Feio”, de Hans Christian Andersen, e sua adaptação para o curta de animação de 1931, incluído na série Silly Symphonies, produzida pela Walt Disney Productions. Em 1939, já em Technicolor, a mesma produtora lançou a segunda versão animada do conto, desta vez, mantendo maior fidelidade à narrativa de Andersen. As Silly Symphonies consistiam em animações que associavam peças musicais e narrativas curtas, que eram livremente adaptadas, em alguns casos, de clássicos da literatura. O objetivo desta comunicação é analisar o processo de criação da obra de 1931, considerando sua transposição do literário para a linguagem da animação cinematográfica, refletindo sobre as opções, alterações com relação à fonte, uso de simbologia e contextualização histórica. Para o estudo, Julio Plaza oferece o aporte teórico referente à tradução intersemiótica; Maria Tatar, Santos e Souza guiarão as chaves de leitura do conto de Andersen; Hanán-Diaz trará luz à abordagem de temas sensíveis; Hutcheon e Mercado, respectivamente, serão as referências para questões sobre adaptação e linguagem audiovisual. Por fim, Canemaker e Thomas serão os autores que permitirão uma aproximação à Walt Disney Productions, elucidando fatores técnicos e/ou cotidianos da produção.
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Herdeiros d‘O patinho feio: reverberações do clássico de Andersen em duas narrativas infantis contemporâneas
Silvana Augusta Barbosa Carrijo
Em seu Introdução à semanálise, Júlia Kristeva afirmava que “Todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de outro texto” (1974, p. 146); em coro, cunhando termos como dialogia, orientação dialógica e dialogismo, Bakhtin dirá, em 1988: “A orientação dialógica é naturalmente um fenômeno próprio a todo o discurso. Trata-se da orientação natural de qualquer discurso vivo. Em todos os seus caminhos até o objeto, em todas as direções, o discurso se encontra com o discurso de outrem e não pode deixar de participar, com ele, de uma interação viva e tensa. Apenas o Adão mítico que chegou com a primeira palavra num mundo virgem [...], somente esse Adão podia realmente evitar por completo esta mútua-orientação dialógica do discurso alheio para o objeto. Para o discurso humano, concreto e histórico, isso não é possível: só em certa medida e convencionalmente é que pode dela se afastar” (Bakhtin, 1988, p. 88). Partindo, pois, desses pressupostos e ancorando-nos também nos aportes teórico-críticos de Hall, Woodward e Silva (2014), entre outros, no que se refere à abordagem sobre identidade e diferença, importa-nos investigar, nos limites do presente trabalho, as reverberações intertextuais da figura d´”O patinho feio”, de Andersen em duas narrativas infantis contemporâneas, quais sejam, É proibido miar (2009), de Pedro Bandeira, e A vaca macaca (2022), de Eduardo Cesar Maia, objetivando perscrutar se, pela semelhança do tema da rejeição, os protagonistas das narrativas de Bandeira e Maia logram, pela vivência do binômio identidade / diferença, o mesmo êxito do personagem clássico de Andersen e, se sim, de que modo o fazem.
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Meninas Vão Ouvir: o conto tradicional na perspectiva feminina contemporânea
Sofia Barrozo Witzler
Marcos Namba Beccari
O projeto de mestrado “Meninas Vão Ouvir: O conto tradicional na perspectiva feminina contemporânea” investiga como contos de fadas — com ênfase em núcleos como "Barba Azul" e tradições perraultianas, grimmianas e andersenianas — são ressignificados em produções midiáticas e práticas de educação informal, especialmente quando reelaborados por e para o público feminino, enfatizando o papel desses contos na construção de representações do feminino e da figura do “homem monstruoso”. O estudo busca compreender a relação entre educação, cultura e transformações sociais impulsionadas pela mídia; analisar como a ficção feminina e a cultura popular reconfiguram mitos e arquétipos para produzir formas de resistência, identificação e empoderamento; e oferecer subsídios para práticas pedagógicas críticas e inclusivas. O corpus de análise parte do conto Barba Azul e estende-se a adaptações e intertextualidades de filmes como “Corra!”, “Nosferatu” e “Drácula”, à clássicos como “Jane Eyre” e finalmente à romances contemporâneos de autoria feminina, como as sagas “Crepúsculo” e “Corte de Espinhos e Rosas”, além de séries e outras obras literárias que exploram a perspectiva da autoria feminina no encontro entre o feminino e a figura monstruosa. A fundamentação teórica articula estudos do imaginário e da cultura (Beccari; Almeida), teoria do mito (Barthes; Propp), estudos da cultura de massa (Morin; Jenkins) e perspectivas feministas sobre arquétipos e jornada da heroína (Clarissa Pinkola Estés; Maria Tatar). Metodologicamente, adota a Hermenêutica de Profundidade de John B. Thompson para integrar análise sócio-histórica e discursiva, permitindo ler deslocamentos simbólicos e ideológicos nas representações de gênero.
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Reflexões sociais e aprendizagens dialógicas com o conto “O Jardineiro e o Senhor”
Stefania de Brito Matos de Oliveira
Este relato de experiência evidencia como os processos de mediação de leitura podem favorecer a compreensão de questões sociais presentes no conto O jardineiro e o Senhor, de Hans Christian Andersen. A reflexão fundamenta-se nas teorias de mediação de leitura e nas aprendizagens dialógicas, em articulação com a obra de Jean-Jacques Rousseau denominada Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. O estudo decorre da experiência da investigadora no Clube de Leitura Teoria das Fadas e tem como objetivo ampliar a compreensão das dimensões sociais do conto, evidenciando como a mediação de leitura, estruturada em práticas dialógicas, pode constituir-se como dispositivo de promoção da literacia e do desenvolvimento da consciência crítica de leitores.
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Os cisnes de Andersen e Dahl: interlocução intertextual
Valquiria Pereira Alcantara
No conto “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen, temos um protagonista rejeitado por seus supostos pares e que se descobre uma ave belíssima e respeitada. Por outro lado, no conto “O cisne”, de Roald Dahl, o protagonista sofre agressões de dois adolescentes pouco mais velhos que ele e, em momento desesperador, a transformação em cisne serve de auxílio para suportar a dor. Nesse contexto intertextual, nosso objetivo principal é identificar elementos de interlocução entre os contos apontando aspectos de convergência e divergência nesse diálogo. Para a análise de ambos os contos citados, que compõem o corpus de nossa pesquisa, faz-se necessário revisitar as reflexões teóricas acerca da literatura infantil e juvenil de Nelly Novaes Coelho (2000) , além de levar em conta a definição de intertextualidade segundo Gérard Genette (2010). De acordo com o pesquisador, a relação intertextual estabelece-se a partir do diálogo diverso entre textos que pode ser mais evidente e literal como as citações até a menos evidente como a alusão. No que tange os contos selecionados para análise, percebe-se o ponto de contato ancorado na transformação pato-cisne e garoto-cisne, mas com desfechos diversos. Dessa forma, a leitura do conto dahliano invoca o texto de Andersen e instiga a reflexão e a busca da compreensão dos aspectos que aproximam e afastam ambos os textos.
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Formação de leitores com contos de Hans Christian Andersen e o ensino de estratégias metacognitivas de leitura
Vania Kelen Belão Vagula
Renata Junqueira de Souza
Este trabalho apresenta parte dos resultados obtidos em uma pesquisa de doutorado desenvolvida pala FCT/Unesp em parceria com o Hans Christian Andersen Instituttet. Objetivou investigar as possibilidades de contribuições dos contos de Andersen e do ensino de estratégias metacognitivas de leitura para a aproximação entre estudantes e textos, bem como para uma compreensão mais aprofundada. Teve como principais atores os alunos de um quinto ano de uma escola de Ensino Fundamental, em um município do interior de São Paulo. A metodologia adotada foi a da pesquisa-ação, envolvendo observação, diagnóstico, entrevistas e oficinas de ensino estratégias de compreensão leitora. Destacamos nesta publicação dados referentes ao trabalho com as estratégias denominadas como “inferência” e “perguntas ao texto”. As análises foram pautadas na metodologia de pesquisa adotada e nas referências teóricas de um conjunto de autores norte-americanos que abordam a metodologia de ensino utilizada. Os resultados demonstraram que o ensino sistematizado e intencional de estratégias metacognitivas de leitura amplia os conhecimentos e experiências dos leitores em formação. Concluiu-se que os conhecimentos sobre o autor, os contextos de produção dos textos e a leitura de diferentes textos de H. C. Andersen, se constituíram como saberes e experiências fundantes para enriquecer o diálogo com os novos textos lidos, possibilitando aos alunos adentrar as camadas mais profundas do texto, realizando inferências em situações de leitura partilhada e individual. Identificou-se que estes conhecimentos, influenciaram a maneira como os alunos receberam e elaboraram temáticas impactantes como a morte em relação ao esperado “e viveram felizes para sempre”.
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As múltiplas infâncias na literatura de Hans Christian Andersen: um olhar sobre as diferentes formas de ser criança
Vitor Hugo Martins Gall Mayworm
Patrícia Pedrosa Botelho
O trabalho ora proposto tem por objetivo apresentar e discutir a contribuição de Hans Christian Andersen para aquilo que, atualmente, denominamos “múltiplas infâncias”. Tal conceito relaciona-se à ideia de que existem diferentes experiências de infância, não homogêneas, as quais variam de acordo com o contexto em que o indivíduo está inserido – espaço geográfico, realidade social, gênero, idade – promovendo vivências que devem ser consideradas em sua diversidade. Sendo assim, sob essa ótica, faremos a análise de dois contos de Andersen: “A pequena vendedora de fósforos” e “Os sapatos vermelhos”, ambos de 1845. Baseamo-nos, para nossa discussão, na Teoria do Efeito Estético, proposta pelo teórico alemão Wolfgang Iser (1996), considerando o paradigma autor/texto/leitor. Também fundamentam este trabalho os pressupostos de Coelho (2000) e de Lajolo e Zilbermann (1987), que evidenciam a literatura infantojuvenil como um espaço privilegiado para a formação ética, estética, cultural e social, ressaltando a importância dessa literatura para a construção de valores, de desenvolvimento do senso crítico e de formação da subjetividade de crianças e jovens. As contribuições de Rosemberg (1985), acerca da infância como construção social — não estática, mas complexa e atravessada por questões estruturais, ainda repletas de inúmeras desigualdades —, permeiam a proposição da pesquisa com o corpus literário escolhido, já que os referidos contos de Andersen evidenciam a diversidade das experiências infantis, as quais podem ser percebidas por meio das personagens-crianças sendo representadas em situações distintas, fazendo-nos olhar criticamente para as estruturas desiguais da sociedade e para as normas sociais que atravessaram (e ainda atravessam!) as infâncias.
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